Professores e diletos biógrafos do escritor davam o tom dos comentários e, com muita pertinência, traçavam-no em sua obra póstuma, Memorial de Aires, como sendo por assim dizer, entre as obras machadianas, aquela que mais o revela como homem, como vivente de seu tempo. Admiro os estudiosos isentos e, no caso do nosso Machado, existem pesquisadores verdadeiramente sérios. E existem também os ideólogos.
Com efeito, Machado de Assis não pode ser produto de novas gerações. Ele, como grande autor que é, deve ser compreendido sem acrobacias acadêmicas. Deve ser visto à luz de seu próprio mundo, na riqueza de seus recursos psicológicos e na beleza de suas construções. A arte literária é capaz de florescer paisagens áridas, dar luz a personagens comuns, enfim, emprestar a cor dos signos, das palavras à nua realidade de uma vivência. O olhar do artista é particular. E compartilhá-lo é, quando nobre, uma experiência admirável para o leitor atento.
No entanto, como se foi provado ao longo de todo o século XX, é possível – sim – destruir reputações, sobretudo, póstumas. Ao longo dos anos, acostumamo-nos e, inclusive, admiramos toda a artística iconoclastia. Desde a moderna paródia de “Meus Oito Anos”, desde a invenção da contracultura antropofágica, não nos permitimos à fragilidade do que é puro. Eis ai a dificuldade do Modernismo em dialogar com seus antecessores.
Mais tarde, já na labuta das gerações contemporâneas, o discurso inflamou-se violentamente. Obras literárias até então consagradas passaram a fazer parte do índex arbitrário dos intelectuais. Cronistas, contistas e escritores de raríssima expressão não podem florescer sozinhos, sem um prólogo incansável de justificativas, como se poetas reconhecidos por séculos tivessem de pedir licença aos nossos intelectuais para existir. É o caso de Joaquim Nabuco, Monteiro Lobato, Lima Barreto, Nelson Rodrigues e, parcialmente, Machado de Assis. Sem me prolongar neste último, num rápido levantamento, quantos alunos dos cursos de Letras do Brasil afora já ouviram falar de seus poemas? Ocidentais, Americanas? Algum pedagogo inteligente deve ter achado que estas obras não serviam. Sequer para ouvir falar.
Voltemos ao programa do Canal Brasil. Entre comentários de muita pertinência e seriedade, um me chamou a atenção: a comparação absurda de que Machado de Assis era uma espécie de “sósia” do Michael Jackson. Segundo o tal crítico, cujo nome não me vem ao caso, o escritor de Dom Casmurro fez de tudo para embranquecer. Suas vestimentas, suas luvas e seu chapéu serviam, na verdade, para esconder-lhe as raízes africanas. Eis o embasamento desta comparação esdrúxula.
Resta saber qual a verdadeira intenção em diminuir nosso precioso escritor. Talvez seja um desses arroubos críticos que mais se assemelham a uma flatulência em procissão. Talvez tenha nesta comparação alguma nódoa de inveja. Se for, é mais grave do que eu pensava.
Dizia eu que Machado não pode ser produto das novas gerações. Na falta do que falar, chamam-lhe racista. Seria o título adequado por tantas e tantas belas passagens nas mais dignas páginas de nossa literatura?
Eduardo Cassilhas
Concordo com você em tudo Eduado, às vezes eu quero falar sobre isso, porém o problema é se vou ser ouvido, ou se devo mesmo falar, poque há certos questionamentos em que é preferível, e mais sensato a gente se calar, muito embora parece que fica algo corroendo por dentro. Então só resta conformar-se e engulir à força o que dizem os "teóricos". Eu também já presenciei, e ouvi teorias vãs que parece que estão subestimando a nossa capacidade de raciocínio. Um abraço e até mai. Arnaldo L. Pereira
ResponderExcluirOi Eduardo! aceito participar do seu projeto cultural, é so você indicar de que forma, se puder ser um dos textos já publicados no recanto, tudo bem, se for através de um novo texto posso providenciar. daqui em diante é só você sinalizar. OK? PARABENS PELO TEXTO SOBRE MACHADO DE ASSIS. TCHAU! OBRIGADO!... ARNALDO.
ResponderExcluirHélio Ribeiro já dizia que "todas as palavras ditas contra o inventor da lâmpada não valem uma única lâmpada acesa".
ResponderExcluirCriticar negativamente Machado de Assis, no meu entender, é uma demonstração de desconhecimento da obra desse grande escritor e pensador, pois para escrever o que escrevia era preciso saber pensar e muito bem.
Quanto à teoria de que seja racista por vestir-se do modo como se vestia, creio ser uma tentativa tola de negar a liberdade alheia, e querer impor desejos no mundo e aos outros.
Cada um que se vista como quiser, e que se sinta bem; cada um que se case com quem quiser, e que se sinta bem assim também...
Então meu amigo! isso é mais ao menos típico daqueles que preferem só ver qualidade no que vem de fora! Talvez para preencher alguma lacuna que não se sabe bem qual. Bastava a ele ser quem era, e como era para dar a resposta ao racismo praticado no seio da sociedade em que vivia. Então alguns o acusavam de praticar racísmo.
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