quarta-feira, 10 de agosto de 2011

GLOBO: Análise dos Princípios Editoriais


Manuel Bandeira








"Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco"    Manuel Bandeira









      No último dia 6 de agosto as Organizações Globo publicaram seus Princípios Editoriais(http://estatico.redeglobo.globo.com/2011/08/06/principios-editoriais-das-organizacoes-globo.pdf), um inédito documento de 28 páginas que se propôs a definir frente às novas dinâmicas da informação o que é um trabalho jornalístico. Sem maniqueísmos prematuros, é preciso reconhecer a historicidade desses princípios publicados pelo maior veículo de comunicação do país. O texto em si não apresenta novidades, aliás, como o próprio documento afirma. Trata-se de colocar no papel uma tradição de 86 anos que, por motivos bem particulares, precisou se posicionar.

      A importância está ai: não se é necessário conhecer diretrizes. Estas, nós leitores acostumamo-nos no dia a dia dos noticiários, nas páginas do impresso, nos esportes, nos entretenimentos. Precisamos, no entanto, em meio ao proliferar de mídias digitais, do desenvolvimento das inúmeras tecnologias de informação, (re)conhecer as Organizações Globo. A tradição quase centenária não foi suficiente para afirmar. Foi preciso reafirmar. Com veemência e precisão, reafirmar. E lá estava o Jornalismo, na figura de sua mais pródiga organização, estritamente mensurado.

      Nos meios acadêmicos e, sobretudo nos cursos de Comunicação Social, tais Princípios Editoriais não tiveram lá uma boa receptividade. Houve quem chamasse atenção para o troca-troca de termos: neutralidade por isenção. Parcialidade por subjetividade. Esta, no entanto, aparenta ser uma discussão menor. Foi preciso ratificar nas salas de aula clichês como “não existe parcialidade no jornalismo”. Este, volto a dizer, não é o ponto. A insistência em debates ideológicos muito pouco pode contribuir para um exame crítico, sincero sobre os novos caminhos da comunicação.
     
      Há tempos atrás a informação era pronta e intocável. O leitor alegrava-se e aborrecia-se solitário. Nos botequins, a notícia circulava por alto, nos barbeiros, nas igrejas. Era um boca a boca, um disse me disse e o jornal, grande veículo, tratava de abastecer continuamente uma multidão de reflexivos silenciosos. Hoje, o silêncio não existe. Notícias são rebatidas, sugeridas, reordenadas, manipuladas por quem quer que seja. O hipertexto reinventou a roda e a internet engoliu a notícia.  A tecnologia, por sua vez, reúne sob sua égide adeptos das mais distintas classes sociais. Quem lê escreve e vice-versa.

      Eis que esta profusão incessante de informações (informação no atacado) cresceu inversamente proporcional à pertinência. Confundem-se num emaranhado de redes virtuais o factual e o ficcional; tal estado de coisas exige do leitor muito mais segurança e senso crítico. Em igual medida, o superficial se impõe ao indispensável e a dinâmica da informação, por ironia, se volta contra si própria. É a informação sem reflexão. Os veículos tradicionais, como aqueles movidos pelas Organizações Globo, precisavam se reconhecer. Daí a importância desse documento.

      Está ai o ponto em que eu queria chegar: não são as Organizações Globo que passam por uma crise de identidade. O que passa é o Jornalismo. Passa a não se enxergar dentro de seu próprio campo. Em pouco, pouquíssimo tempo atrás o STF derrubou a Bastilha que assegurava ainda uma diferenciação entre um e outro fazer informativo. Acabou. Qualquer tentativa de restabelecer a Lei de Imprensa se dará como um sopro moribundo, uma vez que não é mais possível cristalizar a informação. As pequenas empresas de comunicação se proliferam e atraem junto a elas anunciantes de todos os quilates. Estes, que financiam a informação, estão de olho no mercado e certamente estão sensíveis a qualquer mudança de ventos. É o fim da grande imprensa?
      Não. Apenas sua reinvenção. Fosse o capital intelectual brasileiro mais consistentemente letrado, haveria a possibilidade de se trabalhar a diversidade editorial. Parece clichê, mas pecamos em educação. Este pecado os Princípios Editoriais das Organizações Globo subliminarmente parecem reconhecer. Só não saberia dizer se com alguma isenção.
      Reconhecer, redescobrir, reinventar. O prefixo está na moda.       

      E nada voltará a ser como antes.  

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Da Dialética da Incongruência

Difícil imaginar um mundo de meias verdades. Os intelectuais de todos os quilates, quando são questionados sobre a validade e autenticidade de seus temas, colocam a mão no queixo e, com um olhar de desprezo cósmico, sentenciam: - “A verdade é relativa.”
                A relativização da verdade, ou seja, daquilo o que é fato, torna-se a mola mestra de uma incongruência dialética a qual permite direcionar um fato para qualquer interesse. Muito fácil falar a verdade quando a verdade serve como o contexto das intenções e, em última instância, serve à própria mentira.
                Alguém me pergunta: - “Então você acredita na verdade absoluta?”. Sim. Acredito na verdade absoluta. Tomemos um exemplo simples: um plástico e diáfano soco na cara. Ora, independente do contexto, independente da cultura, independente da burrice de quem quer que seja, uma bofetada não pode ser uma demonstração de afeto maternal. Buscar as razões do soco, as causas e conseqüências, enfim, buscar as circunstâncias desta ação não desqualifica, de maneira alguma, o ato em si.
                Ora, e por que estou dizendo isso? Simples: Uma vez que nem eu, nem você temos compromisso com a verdade nua e crua, toda e qualquer manifestação de seriedade se dá num ato de conveniência. Esta é a base de muita propaganda com ares de informação. Quando órgãos públicos se usam deste mesmo artifício – atenuar e acentuar circunstâncias em nome da relatividade do fato – vê-se que a transparência estatal não passa de um nome ao qual um sem número de partidários terá de reverenciar sem valores de juízo.
                O mesmo se passa nas universidades, onde verdades relativas servem para sustentar teses mais compromissadas com um ideal qualquer do que com o zelo acadêmico da pesquisa. Não à toa, nossos núcleos de pesquisa se renderam nas últimas décadas às mais desvairadas vaidades, tudo por um título. Por um título. São as nomenclaturas mais cretinas como, “a pós-sensibilidade em fulano de tal”, “O meta-obscurantismo asmático do século XX”, e por ai vai. O mesmo se sucede às artes. Dependem ambas deste desvario intelectual.
                Mas eu falei de propaganda pública e nela insisto. Um estudante mente por conta própria, uma empresa, apesar dos pesares, também. Mas ver o governo mentir é desesperador. Quando o Brasil depende de um futuro construído na mentira, perdemos referência. A referência, a verdade de como estamos e para onde vamos é indispensável para a construção de um país estável e próspero. Infelizmente acostumamo-nos aos ditames de um engodo eleitoral que se repete todos os anos, num frenesi de sonhos e esperanças. Sonhos e esperanças populares.


A propósito, um exemplo da surpreendente pequenez do que é verdade hoje no Brasil: Reserva Indígena Rapoza Serra do Sol, 2 anos depois da demarcação.


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Um Dicionário de Machado de Assis


E por falar no Bruxo do Cosme Velho, apresento-lhes este belo Dicionário Machado de Assis,  brilhantemente elaborado pelo Prof. Castelar de Carvalho, um filólogo de grandes letras que compõe o corpo docente do Liceu Literário Português. O título, em princípio, esconde toda a potencialidade da obra: não se trata de um dicionário tal como se conhece, ou seja, um catálogo lexicográfico. Numa análise de seus romances mais marcantes o autor conseguiu captar e detalhar de forma lúcida o mundo literário particular de Machado de Assis. Seu corpus autoral.
A obra, que abrange os romances mais marcantes do escritor, é dividida em três grandes categorias: língua, estilo e temas. Sob estas perspectivas são traçadas as nuances de afetividade que impregnam a linguagem e, sobretudo a expressão precisa e dialógica com a qual o gênio de Machado se impõe ante seus leitores. O dicionário não é destinado somente ao público acadêmico. Com uma abordagem clara, é uma ferramenta útil para quem busca descobrir os segredos estéticos e estilísticos do escrever com alma sem extravagâncias e do expressar-se com domínio e sobriedade. Está ai a dica!
Divirtam-se!
Eduardo Cassilhas