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| Manuel Bandeira |
"Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco" Manuel Bandeira
No último dia 6 de agosto as Organizações Globo publicaram seus Princípios Editoriais(http://estatico.redeglobo.globo.com/2011/08/06/principios-editoriais-das-organizacoes-globo.pdf), um inédito documento de 28 páginas que se propôs a definir frente às novas dinâmicas da informação o que é um trabalho jornalístico. Sem maniqueísmos prematuros, é preciso reconhecer a historicidade desses princípios publicados pelo maior veículo de comunicação do país. O texto em si não apresenta novidades, aliás, como o próprio documento afirma. Trata-se de colocar no papel uma tradição de 86 anos que, por motivos bem particulares, precisou se posicionar.
A importância está ai: não se é necessário conhecer diretrizes. Estas, nós leitores acostumamo-nos no dia a dia dos noticiários, nas páginas do impresso, nos esportes, nos entretenimentos. Precisamos, no entanto, em meio ao proliferar de mídias digitais, do desenvolvimento das inúmeras tecnologias de informação, (re)conhecer as Organizações Globo. A tradição quase centenária não foi suficiente para afirmar. Foi preciso reafirmar. Com veemência e precisão, reafirmar. E lá estava o Jornalismo, na figura de sua mais pródiga organização, estritamente mensurado.
Nos meios acadêmicos e, sobretudo nos cursos de Comunicação Social, tais Princípios Editoriais não tiveram lá uma boa receptividade. Houve quem chamasse atenção para o troca-troca de termos: neutralidade por isenção. Parcialidade por subjetividade. Esta, no entanto, aparenta ser uma discussão menor. Foi preciso ratificar nas salas de aula clichês como “não existe parcialidade no jornalismo”. Este, volto a dizer, não é o ponto. A insistência em debates ideológicos muito pouco pode contribuir para um exame crítico, sincero sobre os novos caminhos da comunicação.
Eis que esta profusão incessante de informações (informação no atacado) cresceu inversamente proporcional à pertinência. Confundem-se num emaranhado de redes virtuais o factual e o ficcional; tal estado de coisas exige do leitor muito mais segurança e senso crítico. Em igual medida, o superficial se impõe ao indispensável e a dinâmica da informação, por ironia, se volta contra si própria. É a informação sem reflexão. Os veículos tradicionais, como aqueles movidos pelas Organizações Globo, precisavam se reconhecer. Daí a importância desse documento.
Está ai o ponto em que eu queria chegar: não são as Organizações Globo que passam por uma crise de identidade. O que passa é o Jornalismo. Passa a não se enxergar dentro de seu próprio campo. Em pouco, pouquíssimo tempo atrás o STF derrubou a Bastilha que assegurava ainda uma diferenciação entre um e outro fazer informativo. Acabou. Qualquer tentativa de restabelecer a Lei de Imprensa se dará como um sopro moribundo, uma vez que não é mais possível cristalizar a informação. As pequenas empresas de comunicação se proliferam e atraem junto a elas anunciantes de todos os quilates. Estes, que financiam a informação, estão de olho no mercado e certamente estão sensíveis a qualquer mudança de ventos. É o fim da grande imprensa?
Não. Apenas sua reinvenção. Fosse o capital intelectual brasileiro mais consistentemente letrado, haveria a possibilidade de se trabalhar a diversidade editorial. Parece clichê, mas pecamos em educação. Este pecado os Princípios Editoriais das Organizações Globo subliminarmente parecem reconhecer. Só não saberia dizer se com alguma isenção.
Reconhecer, redescobrir, reinventar. O prefixo está na moda.
E nada voltará a ser como antes.
