sexta-feira, 15 de julho de 2011

Da Dialética da Incongruência

Difícil imaginar um mundo de meias verdades. Os intelectuais de todos os quilates, quando são questionados sobre a validade e autenticidade de seus temas, colocam a mão no queixo e, com um olhar de desprezo cósmico, sentenciam: - “A verdade é relativa.”
                A relativização da verdade, ou seja, daquilo o que é fato, torna-se a mola mestra de uma incongruência dialética a qual permite direcionar um fato para qualquer interesse. Muito fácil falar a verdade quando a verdade serve como o contexto das intenções e, em última instância, serve à própria mentira.
                Alguém me pergunta: - “Então você acredita na verdade absoluta?”. Sim. Acredito na verdade absoluta. Tomemos um exemplo simples: um plástico e diáfano soco na cara. Ora, independente do contexto, independente da cultura, independente da burrice de quem quer que seja, uma bofetada não pode ser uma demonstração de afeto maternal. Buscar as razões do soco, as causas e conseqüências, enfim, buscar as circunstâncias desta ação não desqualifica, de maneira alguma, o ato em si.
                Ora, e por que estou dizendo isso? Simples: Uma vez que nem eu, nem você temos compromisso com a verdade nua e crua, toda e qualquer manifestação de seriedade se dá num ato de conveniência. Esta é a base de muita propaganda com ares de informação. Quando órgãos públicos se usam deste mesmo artifício – atenuar e acentuar circunstâncias em nome da relatividade do fato – vê-se que a transparência estatal não passa de um nome ao qual um sem número de partidários terá de reverenciar sem valores de juízo.
                O mesmo se passa nas universidades, onde verdades relativas servem para sustentar teses mais compromissadas com um ideal qualquer do que com o zelo acadêmico da pesquisa. Não à toa, nossos núcleos de pesquisa se renderam nas últimas décadas às mais desvairadas vaidades, tudo por um título. Por um título. São as nomenclaturas mais cretinas como, “a pós-sensibilidade em fulano de tal”, “O meta-obscurantismo asmático do século XX”, e por ai vai. O mesmo se sucede às artes. Dependem ambas deste desvario intelectual.
                Mas eu falei de propaganda pública e nela insisto. Um estudante mente por conta própria, uma empresa, apesar dos pesares, também. Mas ver o governo mentir é desesperador. Quando o Brasil depende de um futuro construído na mentira, perdemos referência. A referência, a verdade de como estamos e para onde vamos é indispensável para a construção de um país estável e próspero. Infelizmente acostumamo-nos aos ditames de um engodo eleitoral que se repete todos os anos, num frenesi de sonhos e esperanças. Sonhos e esperanças populares.


A propósito, um exemplo da surpreendente pequenez do que é verdade hoje no Brasil: Reserva Indígena Rapoza Serra do Sol, 2 anos depois da demarcação.


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Um Dicionário de Machado de Assis


E por falar no Bruxo do Cosme Velho, apresento-lhes este belo Dicionário Machado de Assis,  brilhantemente elaborado pelo Prof. Castelar de Carvalho, um filólogo de grandes letras que compõe o corpo docente do Liceu Literário Português. O título, em princípio, esconde toda a potencialidade da obra: não se trata de um dicionário tal como se conhece, ou seja, um catálogo lexicográfico. Numa análise de seus romances mais marcantes o autor conseguiu captar e detalhar de forma lúcida o mundo literário particular de Machado de Assis. Seu corpus autoral.
A obra, que abrange os romances mais marcantes do escritor, é dividida em três grandes categorias: língua, estilo e temas. Sob estas perspectivas são traçadas as nuances de afetividade que impregnam a linguagem e, sobretudo a expressão precisa e dialógica com a qual o gênio de Machado se impõe ante seus leitores. O dicionário não é destinado somente ao público acadêmico. Com uma abordagem clara, é uma ferramenta útil para quem busca descobrir os segredos estéticos e estilísticos do escrever com alma sem extravagâncias e do expressar-se com domínio e sobriedade. Está ai a dica!
Divirtam-se!
Eduardo Cassilhas

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Machado de Assis sob a Ótica Bicolor


Recentemente assisti no Canal Brasil a um curiosíssimo documentário sobre o Rio de Janeiro no olhar minimalista de Machado de Assis. Acomodei-me sobre o sofá e, enquanto mastigava alguns biscoitos, admirei aquela cidade mística que saudosistas de todas as latitudes poderiam jurar ter conhecido. Era ótimo, exceto por um detalhe.
Professores e diletos biógrafos do escritor davam o tom dos comentários e, com muita pertinência, traçavam-no em sua obra póstuma, Memorial de Aires, como sendo por assim dizer, entre as obras machadianas, aquela que mais o revela como homem, como vivente de seu tempo. Admiro os estudiosos isentos e, no caso do nosso Machado, existem pesquisadores verdadeiramente sérios. E existem também os ideólogos.   
Com efeito, Machado de Assis não pode ser produto de novas gerações. Ele, como grande autor que é, deve ser compreendido sem acrobacias acadêmicas. Deve ser visto à luz de seu próprio mundo, na riqueza de seus recursos psicológicos e na beleza de suas construções. A arte literária é capaz de florescer paisagens áridas, dar luz a personagens comuns, enfim, emprestar a cor dos signos, das palavras à nua realidade de uma vivência. O olhar do artista é particular. E compartilhá-lo é, quando nobre, uma experiência admirável para o leitor atento.
No entanto, como se foi provado ao longo de todo o século XX, é possível – sim – destruir reputações, sobretudo, póstumas. Ao longo dos anos, acostumamo-nos e, inclusive, admiramos toda a artística iconoclastia. Desde a moderna paródia de “Meus Oito Anos”, desde a invenção da contracultura antropofágica, não nos permitimos à fragilidade do que é puro. Eis ai a dificuldade do Modernismo em dialogar com seus antecessores.
Mais tarde, já na labuta das gerações contemporâneas, o discurso inflamou-se violentamente. Obras literárias até então consagradas passaram a fazer parte do índex arbitrário dos intelectuais. Cronistas, contistas e escritores de raríssima expressão não podem florescer sozinhos, sem um prólogo incansável de justificativas, como se poetas reconhecidos por séculos tivessem de pedir licença aos nossos intelectuais para existir. É o caso de Joaquim Nabuco, Monteiro Lobato, Lima Barreto, Nelson Rodrigues e, parcialmente, Machado de Assis. Sem me prolongar neste último, num rápido levantamento, quantos alunos dos cursos de Letras do Brasil afora já ouviram falar de seus poemas? Ocidentais, Americanas? Algum pedagogo inteligente deve ter achado que estas obras não serviam. Sequer para ouvir falar.  
Voltemos ao programa do Canal Brasil. Entre comentários de muita pertinência e seriedade, um me chamou a atenção: a comparação absurda de que Machado de Assis era uma espécie de “sósia” do Michael Jackson. Segundo o tal crítico, cujo nome não me vem ao caso, o escritor de Dom Casmurro fez de tudo para embranquecer. Suas vestimentas, suas luvas e seu chapéu serviam, na verdade, para esconder-lhe as raízes africanas. Eis o embasamento desta comparação esdrúxula.
Resta saber qual a verdadeira intenção em diminuir nosso precioso escritor. Talvez seja um desses arroubos críticos que mais se assemelham a uma flatulência em procissão. Talvez tenha nesta comparação alguma nódoa de inveja. Se for, é mais grave do que eu pensava.    
Dizia eu que Machado não pode ser produto das novas gerações. Na falta do que falar, chamam-lhe racista. Seria o título adequado por tantas e tantas belas passagens nas mais dignas páginas de nossa literatura?

Eduardo Cassilhas

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Parque Nacional da Tijuca completa 50 anos!

O Parque Nacional da Tijuca completa neste dia 6 de junho 50 anos de fundação. Para comemorar a data, a Globo Rio prepara uma festa na Quinta da Boa Vista que contará com a última apresentação do Grupo Exaltasamba, juntamente com o Coral das Meninas dos Canarinhos de Petrópolis. O evento se iniciará a partir das 13 horas do próximo domingo, dia 10, e terá entrada franca.
Eis o motivo para comemorar: O Parque Nacional da Tijuca é o maior patrimônio cultural do Rio de Janeiro. O Complexo é dividido em quatro grandes áreas: A Floresta da Tijuca, seus picos e recantos; Pedra da Gávea, conhecida e freqüentada pelos esportes com vôo; Serra da Carioca, que compreende o Corcovado, Vista Chinesa e Parque Lage, por fim,  a Serra dos Pretos Forros.
Apesar de sua grande importância, tanto para o ecossistema quanto para o setor de turismo, sendo um dos mais conhecidos símbolos de nossa cidade, o Parque Nacional da Tijuca ainda sofre bastante para preservar toda sua rica fauna e flora. Incêndios, ocupações desordenadas e dejetos nas trilhas e nas matas são os maiores problemas e os maiores desafios para a preservação desse patrimônio. Organizações Não Governamentais trabalham junto aos poderes públicos para que o máximo de estragos possível seja minimizado.
Seja como for, é necessário que mais pessoas, as novas gerações conheçam de perto este patrimônio da cidade para que possamos dar valor àquilo que nos foi tão bem arquitetado pela natureza. É preciso que o brasileiro, sobretudo o carioca, descubra e redescubra nossas riquezas. Experimentar é redescobrir!
Vida longa ao Parque Nacional da Tijuca!  

terça-feira, 5 de julho de 2011

Exame da Ordem dos Advogados do Brasil reprova 88%

O último exame da Ordem dos Advogados do Brasil realizado em dezembro de 2010 deixa números alarmantes: dos 106.891 candidatos (Bacharéis em Direito) somente 12.534 foram aprovados e poderão exercer o ofício de suas atribuições sem prejuízos à legalidade. O Coordenador Nacional do Exame, Vinícius Furtado Coelho, entende que as universidades públicas ganham papel de destaque, aprovando mais de 60% de seus alunos no exame, enquanto há universidades que não conseguem aprovar ninguém.

Faculdade de Direito do Largo de São Francisco:
A primeira instituição do curso no país.

No entanto, culpar somente as instituições de ensino superior – realmente mais preocupadas com questões mercadológicas que acadêmicas – é um ato superficial. Descortinemos o espetáculo da educação brasileira: classificações pífias em qualquer ranking entre países do mundo. O milagre da alfabetização em massa. Os números do governo. A propaganda ostensiva...

Não é preciso muito esforço para concluir que os verdadeiros problemas a serem combatidos não estão na labuta dos universitários. Os problemas estão precisamente na educação dada às crianças, no despertar das atividades cognitivas e, um pouco adiante, nos fundamentos inerentes ao ensino de base. É a escola que perde sua missão maior, essencialmente filantrópica, para abraçar as benesses de uma educação paliativa, aproveitando-se muitas vezes de uma lacuna educacional presente no próprio ambiente familiar de seus alunos. O déficit acadêmico, enxergado com horror por pais, educadores e magistrados, tem seu ponto de partida na relativização da escola, cujas “orientações pedagógicas” submetem-se inteiramente a interesses pouco instrutivos.

Pensar o ensino superior é, por assim dizer, um mero prolongamento desta prática. Mais do mesmo. Se as universidades públicas demonstram maior potencialidade, tanto no mercado de trabalho quanto na aquisição de graus, é porque lá dentro estão os alunos que tiveram a oportunidade de concluir seus primeiros anos de estudo com honestidade.

Os Bacharéis de Direito que não passaram no exame não têm motivo algum para se lamentar. Foram também vítimas do mercado público e privado da educação. Certamente alguns deles terão competência para serem aprovados no exame da Ordem em agosto deste ano, mas muito poucos irão, infelizmente, se questionar sobre os valores mais caros da educação.

Eduardo Cassilhas

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sejam Bem-vindos!

Sunshine by the Ocean - Vladimir Kush

Madressilva é a realização de uma dessas pequenas vontades que vêm à mente e insistem em se projetar maiores. Trata-se de uma publicação multiautoral cujo objetivo é construir pontes entre as mais variadas áreas do conhecimento, a fim de entender os aspectos culturais da sociedade brasileira. Aqui o leitor poderá ler artigos de seu interesse, comentá-los e, com alguma vontade, escrevê-los, numa troca construtiva de idéias e expressões.
A intenção é reunir pessoas criativas, com honestidade intelectual e que tenham algo a mostrar ao público. Um olhar diferente sobre a realidade com a qual muitos de nós estamos acostumados. Uma forma diferente de enxergar o que, trivialmente, se passa despercebido sob nossos próprios olhos.
Para colaborar, mande um e-mail para madrescultural@gmail.com e entre em contato conosco. Os artigos aqui dispostos são de inteira responsabilidade dos colaboradores, não tendo a publicação qualquer responsabilidade sobre a repercussão destes. Não serão admitidas ofensas, ameaças, calúnias e difamações de qualquer natureza a qualquer pessoa ou grupo social.
Espero que possamos agradar ao público que, como nós, deseja um momento de reflexão desinteressada, que é, sem dúvida, a melhor de todas as reflexões. Espero também que consigamos colaborar para a exposição de artistas que, por algum motivo, não se sentiram ainda à vontade para expor ao público suas criações. Estamos abertos às livres idéias!

Sejam bem-vindos!

Eduardo Cassilhas